A pirâmide de Khufu, também conhecida como Grande Pirâmide de Guizé, no Egito — Foto: Murat Bakmaz/Anadolu via Getty Images
Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Newcastle sugere que uma das principais ferramentas desenvolvidas pela humanidade, a broca, pode ter sido inventada 2 mil anos antes do que se imaginava, relata o Daily Mail.
A pesquisa partiu da análise de um objeto catalogado no acervo do Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade de Cambridge, que foi encontrado em 1924 na cidade de Badari, no Egito, pelo arqueólogo britânico Guy Brunton.
A peça, cuja origem remonta há mais de 5 mil anos, inicialmente foi registrada como um furador, principal ferramenta utilizada pelos primeiros grupos humanos antes do desenvolvimento da broca.
A peça, cuja origem remonta há mais de 5 mil anos, inicialmente foi registrada como um furador — Foto: Martin Odler/Universidade de Newcastle
Mas observações microscópicas recentes indicaram sinais de desgaste que correspondiam melhor a um movimento de rotação, apontando para um design mais sofisticado. A interpretação é reforçada por finos rolos de couro encontrados com o item, que sugerem um sistema de “broca de arco”, na qual a peça é enrolada em um pedaço de linha ou tecido, apoiada sobre uma superfície e puxada de um lado para o outro para fazê-la girar, perfurando o material.
Enquanto o furador perfura por pressão direta, a broca usa rotação contínua, um método mais eficiente em ofícios como a marcenaria. Seu desenvolvimento representou um salto cognitivo e técnico significativo para a civilização egípcia, e a hipótese do seu surgimento ter ocorrido milênios antes do que se imaginava aponta novas possibilidades para historiadores e arqueólogos.
Os exemplares mais antigos desse tipo de ferramenta datavam do período chamado de Novo Império (1550-1070 a.C.), considerada a era de ouro do Antigo Egito. Mas o 1924.948 A - nome oficial da peça investigada pela equipe do Dr. Martin Odle, chefe da pesquisa sobre o objeto - data de uma época muito anterior a esta: a do período Naqada IID (3300-3200 a.C.), que antecedeu a unificação do Egito.
A descoberta reescreve a cronologia das primeiras dinastias egípcias, situando a ascensão do Novo Império quase um século depois do que se pensava anteriormente. O Novo Império, que durou de 1550 a 1070 a.C., foi o auge do poder, da riqueza e da expansão territorial do Egito, a era de governantes famosos como Tutancâmon.
Ele começou com a XVIII Dinastia, fundada pelo faraó Ahmose I, que reunificou o Egito e expulsou os invasores hicsos, restaurando a autoridade central após um período de fragmentação.
Agora, cientistas confirmaram que a enorme erupção vulcânica de Santorini (Tera) ocorreu antes do reinado de Ahmose, o que significa que a XVIII Dinastia, e o próprio Novo Império, surgiram mais tarde do que se acreditava. Até então, os historiadores frequentemente presumiam que a erupção poderia ter coincidido com o início do Novo Império, e alguns pesquisadores até tentaram vinculá-la a faraós específicos, incluindo Hatshepsut, Tutmés III ou Ahmose I.
A descoberta crucial vem da datação por radiocarbono de artefatos egípcios da 17ª e do início da 18ª dinastias. Os pesquisadores examinaram um tijolo de barro com o nome de Ahmose gravado, um pano funerário de linho e figuras funerárias de madeira chamadas shabtis, todos diretamente relacionados a faraós conhecidos e seus templos.
Como esses objetos estão ancorados em contextos históricos específicos, suas datações fornecem um retrato confiável do período.
O estudo mostra que a erupção é anterior a esses artefatos, reformulando a maneira como os historiadores entendem a ascensão do período mais poderoso do Egito.
Outro detalhe interessante sobre a peça é sua composição. Embora seja feita principalmente de cobre, também foram identificados traços de arsênico, níquel, chumbo e prata, o que sugere um amplo intercâmbio de materiais e conhecimento técnico na região do antigo Mediterrâneo.
*Com supervisão de Marisa Adán Gil


