A impossibilidade de reverter um “quadro fiscal insustentável” num ano eleitoral vai obrigar o candidato à Presidência que sair vitorioso das urnas a tomar medidas duras para conter o gasto do governo, impedir o crescimento da dívida pública e facilitar o trabalho do Banco Central de reduzir os juros.

Uma solução possível seria repetir a estratégia adotada pelo governo de Michel Temer (2016-2019), que herdou da gestão Dilma Rousseff uma economia com forte deterioração fiscal e macroeconômica, incluindo juros altos (Selic a 14,5%), déficit nominal de 10% do PIB e dívida pública elevada - quadro, de certa forma, parecido com o atual.

A sugestão foi feita na terça-feira, 10 de fevereiro, por Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual, durante evento do banco no qual participou de um painel sobre macroeconomia com outros três economistas da instituição.

Almeida traçou um cenário fiscal sombrio do governo Lula. Segundo ele, a atual gestão fez um ajuste recente via arrecadação, enquanto as despesas reais cresceram cerca de 20%.

“Isso pressionou a inflação e os juros, elevando o déficit nominal para cerca de 8,5% do PIB e o juro real de longo prazo para 7,5%, é um quadro insustentável”, advertiu Almeida, considerado um dos maiores especialistas em contas públicas do País.

Segundo ele, a valorização recente do real teve origem externa, não em reformas. “O governo atual criou um programa fora da regra fiscal em 2024 e 2025 que não deu certo, e temos agora um problema fiscal sério”, acrescentou durante o CEO Conference.

O desafio à frente não será pequeno, avisou. “Vai ser difícil crescer nos próximos quatro anos o que crescemos nos últimos quatro, pois lá atrás havia desemprego alto e agora ele está baixo; além disso, crescimento potencial baixo da economia em 2026, estimado em 1,5%, limita a tração.”

“Teremos dificuldade de fazer a economia crescer 2%,  sem ajuste fiscal não conseguiremos reduzir juros e a dívida pública vai ser um enorme problema”, emendou.

Nessa situação, Almeida afirmou que o próximo governo terá de conter o gasto público e adotar uma regra fiscal crível. Ele defendeu um ajuste futuro pelo controle de despesas, como foi feito pelo governo Temer – do qual participou como secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, cuidando da política fiscal, e, depois, como secretário do Tesouro.

“As experiências do período Temer mostram que segurar as despesas permitiu uma queda de juros e melhora de expectativas”, disse o atual economista-chefe do BTG. “O controle do gasto derruba inflação e os juros, melhora o déficit nominal e freia a dívida”, acrescentou, nomeando todos os problemas sérios da política econômica do atual governo.

Juros e dólar

Ainda em relação ao Brasil, o painel do BTG também discutiu a estratégia do Banco Central para dar início ao ciclo de queda de juros.

Tiago Berriel, sócio e estrategista-chefe do BTG, observou que, apesar de ser ano eleitoral, que costuma ser marcado por volatilidade cambial e possível política fiscal expansionista, a expectativa é de que o Banco Central corte a taxa Selic (hoje em 15%) três pontos percentuais até dezembro.

“O mais provável é termos cortes de 0,5 ponto percentual nas próximas duas reuniões do Copom, com reavaliação conforme a evolução eleitoral”, disse Berriel. “A aceleração dos cortes, portanto, vai depender de ambiente calmo, sem choques cambiais nem surpresas fiscais.”

Os demais integrantes do painel debateram temas como a instabilidade do dólar e da geopolítica global, além da política monetária dos EUA, os impactos econômicos da IA e a deterioração institucional americana.

O economista Eduardo Loyo foi cauteloso quanto ao afrouxamento monetário do Federal Reserve, o banco central dos EUA, na nova gestão de Kevin Warsh, alertando para a dependência de ganhos de produtividade da IA no curto prazo para uma queda imediata de juros.

Samuel Pessoa, pesquisador macroeconômico do banco, sustentou que ganhos de produtividade da IA tendem a ser defasados e limitados no curto prazo. Ele destacou a importância do consumo de energia na produtividade da IA.

Ele sugeriu ainda que a desvalorização recente do dólar reflete uma deterioração institucional nos EUA. “Uma derrota significativa do trumpismo nas eleições de meio de mandato deste ano poderia sustentar uma nova recuperação do dólar”, advertiu Pessoa.

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