Juro elevado e ciclo de deficits pressionam economias; dívida alta e exigências de defesa restringem margem de governos europeusJuro elevado e ciclo de deficits pressionam economias; dívida alta e exigências de defesa restringem margem de governos europeus

Dívida pública estrangula orçamentos e pressiona governos na Europa

2026/02/28 19:00
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O cenário global consolida uma tendência que afeta de forma relevante a estabilidade econômica e política: a dívida pública tornou-se um dos principais entraves à soberania nacional e ao crescimento econômico, aprofundando-se depois dos estímulos fiscais da pandemia de covid-19 e sendo agravada pelo ciclo de juros iniciado em 2021 para conter a inflação global.

Segundo projeções do FMI (Fundo Monetário Internacional) para 2026, 7 das 11 maiores economias do planeta operam com dívidas superiores ao seu PIB (Produto Interno Bruto), e todas elas apresentarão resultado nominal negativo este ano –ou seja, gastarão mais do que arrecadam em termos de fluxo, sem considerar os juros da dívida.

Segundo dados do BC (Banco Central) do Brasil, a dívida pública nacional era de 78,6% do PIB em novembro de 2025. O total difere das projeções do FMI, que contabiliza todos os títulos do Tesouro, mesmo os que estão na carteira da autoridade monetária, enquanto o BC brasileiro os exclui. A diferença na contabilização dos valores explica a diferença dos números. Eis a íntegra da metodologia do BC (2 MB) e do FMI (PDF – 5 MB, em inglês).

Países como Japão, Itália e EUA convivem com um mecanismo de asfixia orçamentária, cujos deficits recorrentes exigem emissões constantes de títulos, elevando juros que consomem o espaço de investimento estratégico. Economistas ouvidos pelo Poder360 chamam esse ciclo de “efeito bola de neve” –quando o crescimento da dívida por juros supera o crescimento econômico nominal.

O problema não é ter uma dívida alta, mas a forma como a trajetória da dívida consome liberdade fiscal. Deficits recorrentes exigem financiamento constante, e juros mais altos aumentam o custo de manter o estoque da dívida, pressionando diretamente os orçamentos e restringindo políticas sociais e investimentos estratégicos.

Essa dinâmica explica o efeito: quanto maior for o estoque, maior o peso dos juros no orçamento. , economista e sócio-proprietário da Boa Brasil Capital, destaca que “a preocupação não é o deficit anual, mas a trajetória contínua da dívida. Uma vez que a dinâmica se instala, mesmo sem novos déficits primários, a dívida continua a crescer”.

Segundo ele,“a preocupação fiscal deixa de ser o deficit de um ano e passa a ser a trajetória da dívida no momento em que sua dinâmica entra em um ciclo vicioso. Isso se dá quando a taxa de juros paga sobre a dívida existente é consistentemente maior que a taxa de crescimento nominal da economia. Nesse cenário, a dívida cresce por inércia, mesmo que o governo não tenha novos deficits primários”.

Rafael Esposito, especialista em Gestão Financeira e Fiscal, complementa: “Os efeitos prolongados geram o que pode ser denominado de ‘superdívida’: a arrecadação não é capaz de pagar nem os juros, nem as demais despesas. Nesse estágio, é um deficit perigoso e exige um esforço muito grande de negociação, além de reformas monetárias e fiscais, para tentar frear a progressão da dívida”.

O DILEMA EUROPEU

O continente enfrenta um cenário em que estoques elevados de dívida se combinam a pressões estruturais: envelhecimento populacional, substituição do petróleo russo por outras fontes de energia mais caras em razão das restrições impostas à Rússia pela guerra na Ucrânia e da ruptura das cadeias tradicionais de suprimento.

Há também a necessidade de aumentar os gastos militares para autodefesa em um contexto de maior instabilidade geopolítica e reconfiguração do sistema de segurança europeu. Os integrantes da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) elevaram a meta de investimento em defesa de 2% para 5% do PIB até 2035, pressionando ainda mais orçamentos já engessados.

A posição oficial do governo russo reforça a relevância geopolítica do problema europeu. Em entrevista ao Poder360, o embaixador russo no Brasil, Alexey Kazimirovitch Labetskiy, afirmou que “as restrições europeias contra Moscou influenciam mais a Europa do que a nós. A troca de energia russa por hidrocarbonetos americanos e a dependência de armas dos EUA pressionam os balanços fiscais do continente”.

O Kremlin mantém a argumentação de que decisões de política externa europeia têm efeito direto sobre a sustentabilidade fiscal do continente, configurando um efeito bumerangue das sanções.

França e Itália ilustram a questão: equilibrar deficits elevados, atender regras europeias e investir estrategicamente causa tensão fiscal constante. André Mirsky, economista e consultor financeiro, declara que “o contexto europeu combina baixo crescimento, altos níveis de endividamento público, juros elevados e desaceleração industrial. Há pouco espaço para políticas sociais ou estratégicas”.

O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez (PSOE, esquerda), já alertou que o aumento exigiria cortes insustentáveis em pensões e serviços públicos. Na França, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu (Renascimento, centro) aprovou uma lei orçamentária especial para evitar uma paralisação total do país em janeiro de 2026, depois de o Parlamento não chegar a um consenso sobre o Orçamento nacional. A porta-voz do governo, Maud Bregeon, classificou a medida como um “paliativo” necessário ante uma dívida de 3,5 trilhões de euros.

O CASO NORTE-AMERICANO

Mesmo com déficits elevados, os EUA têm maior flexibilidade para rolar a dívida em sua própria moeda e manter espaço para políticas estratégicas. Essa condição decorre do papel do dólar como principal moeda de reserva internacional, o que sustenta demanda global por títulos do Tesouro norte-americano e reduz o risco de refinanciamento abrupto. Ainda assim, a trajetória fiscal pode provocar deterioração gradual da confiança, aumento do custo de financiamento e maior volatilidade nos mercados.

Os EUA baseiam parte dessa resiliência em uma política econômica ancorada na credibilidade institucional, na profundidade de seu mercado financeiro e na capacidade de emitir dívida em moeda própria amplamente aceita internacionalmente.

Apesar disso, em outubro de 2025, o governo norte-americano passou pelo maior shutdown — paralisação parcial da administração federal provocada pela falta de aprovação do orçamento pelo Congresso– de sua história, com duração de 43 dias. Nesses episódios, agências públicas suspendem atividades não essenciais e servidores são colocados em licença temporária sem remuneração. O impasse afetou 13 agências federais e gerou incerteza política e econômica, ainda que de forma temporária.

Para Bassani, “o impasse orçamentário e shutdowns não impactam apenas a política interna. São sinais de atenção para investidores internacionais e afetam a capacidade do governo de honrar compromissos”.

A comparação com a Europa ajuda a dimensionar o problema. Enquanto os EUA enfrentam impasses episódicos dentro de uma estrutura institucional consolidada e contam com ampla autonomia monetária, países europeus operam sob restrições adicionais: regras fiscais supranacionais, menor coordenação política e, no caso da Zona do Euro, ausência de soberania monetária individual. Assim, a pressão europeia tende a ser mais estrutural e persistente.

Os economistas ouvidos pelo Poder360 convergem na avaliação de que o risco não está apenas no tamanho da dívida, mas na sua dinâmica: quando os juros pagos superam o crescimento nominal da economia, a trajetória se torna autossustentada e progressivamente mais difícil de reverter. Nesse cenário, deficits deixam de ser pontuais e passam a comprometer a capacidade de planejamento de médio e longo prazo. Orçamentos engessados por juros e dívidas limitam a capacidade de investimento estratégico e a manutenção de políticas sociais.

Para Esposito, “a fragilidade fiscal é um selo de fraqueza geopolítica; torna inviável investir em defesa se houver necessidade de tecnologia externa e reduz a capacidade de proteger políticas sociais”.

Essa escalada permanece como uma das principais ameaças à governabilidade e à ordem global, especialmente na Europa, onde pressões fiscais, desafios demográficos e tensões geopolíticas convergem simultaneamente.

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