Desde que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, posicionou a cripto como um dos principais pilares de sua campanha, líderes políticos na Europa passaram a adotar uma abordagem semelhante, buscando atrair eleitores alinhados ao setor de ativos digitais enquanto a indústria continua a se expandir.
Partidos de direita, em especial, intensificaram essa estratégia. O caráter não-soberano do Bitcoin e seu foco na limitação da intervenção estatal tornaram as criptos especialmente atrativas para líderes conservadores e liberais.
Por outro lado, seu potencial para dificultar o rastreamento de fluxos financeiros também tem levado líderes de oposição a adotar uma postura cautelosa.
Durante a campanha presidencial de 2024, Trump estabeleceu um precedente ao tornar a cripto parte indispensável de sua agenda. O movimento foi estratégico.
A posse de ativos digitais segue crescendo nos Estados Unidos, embora o avanço ainda encontre barreiras em regulações que membros do setor consideram desfavoráveis à inovação.
Ao mesmo tempo, o segmento mostrou ser altamente lucrativo, com empresas de cripto dispostas a destinar milhões de dólares a candidatos que explicitamente defendem os ativos digitais.
Em seguida, Trump saiu vencedor. Logo, líderes políticos de outras regiões – especialmente da Europa – voltaram seus olhos para essa estratégia e passaram a adotar medidas semelhantes.
O Reform Party do Reino Unido, liderado por Nigel Farage, tem sido o exemplo mais explícito dessa mudança de postura.
Em maio de 2025, o Reform se tornou o primeiro partido político do Reino Unido a aceitar doações em cripto. Farage fez o anúncio durante sua participação na Bitcoin Conference em Las Vegas, onde foi apresentado como candidato à presidência.
No discurso, Farage afirmou que o Reform planeja apresentar um projeto de lei sobre criptoativos e finanças digitais. A legislação pretende limitar o imposto sobre ganhos de capital em cripto a 10%.
Pouco depois, as doações de investidores em cripto começaram a chegar.
Em dezembro, surgiram informações de que o investidor em criptomoedas e empresário do setor aéreo Christopher Harborne havia doado £9 milhões ao partido. Harborne, grande investidor da emissora de stablecoin Tether, realizou a doação em dinheiro e não em cripto.
Também apareceram indícios de fortes conexões entre Farage e aliados próximos de Trump.
O Byline Times divulgou recentemente que, em outubro passado, Farage declarou ter recebido £30.000 por uma palestra da Blockworks Inc., plataforma líder em dados e informações sobre cripto, com ligações a círculos de investimento pró-Trump no setor.
O veículo também relatou que Farage já vinha recebendo pagamentos antes de anunciar a candidatura à presidência.
De acordo com o jornalista Nafeez Ahmed, David Bailey, CEO da BTC Inc. e conselheiro sênior de cripto para Trump, pagou a Farage pelo trabalho como palestrante usando recursos da BTC Inc. Meses depois, o líder do Reform revelou sua plataforma política pró-cripto.
De forma menos enfática, alguns países vizinhos do Reino Unido também iniciaram mudanças em relação ao setor de ativos digitais.
Desde meados da década de 2010, a direita francesa figura entre as principais forças nas eleições presidenciais, embora ainda não tenha alcançado o controle do executivo.
Marine Le Pen, líder do partido Reagrupamento Nacional, é o principal nome desse espectro político na França. Sua opinião sobre o Bitcoin e o setor de cripto evoluiu ao longo dos anos.
Em 2016, ela prometeu proibir moedas virtuais, incluindo o Bitcoin. Segundo Le Pen, elas seriam resultado de uma aliança entre o que chamou de “elite dominante” e o poderoso lobby de bancos de investimento de Wall Street.
Em 2022, Le Pen mudou de posição e passou a defender a regulação dos ativos digitais. Em 2025, propôs que a França criasse suas próprias moedas virtuais.
Em março deste ano, Le Pen visitou a usina nuclear de Flamanville e apoiou o uso da energia excedente dos reatores para minerar Bitcoin.
Membros da Reconquête, outra sigla da direita na França, também apresentaram ao Parlamento Europeu a proposta de criar uma reserva estratégica de Bitcoin.
Segundo o Le Monde, a proposta era praticamente uma cópia da ordem executiva assinada por Trump em março do ano anterior.
O crescente interesse político em ativos digitais na França não é coincidência. Conforme relatório de 2024 da Associação Francesa para o Desenvolvimento de Ativos Digitais, 12% da população detinha criptoativos, um salto de 25% em relação ao ano anterior.
Como ficou claro nos Estados Unidos durante a campanha de Donald Trump, atrair eleitores alinhados à cripto oferece aos políticos um caminho para uma base eleitoral que tem crescido de forma contínua.
Em outros países, iniciativas para adotar a cripto têm sido ainda mais expressivas.
A Polônia registrou uma nova onda de sentimento de direita em seu cenário político nos últimos anos. Apesar de o país ser governado por uma coalizão de centro-direita, há crescente concorrência de movimentos ainda mais conservadores e libertários.
Sławomir Mentzen, presidente do partido Nova Esperança de direita, tornou-se um dos principais nomes dessa transição, aumentando sua popularidade. Autodeclarado libertário, Mentzen sempre demonstrou interesse pelo Bitcoin, que representa parte significativa de seu portfólio pessoal de investimentos.
Quando Mentzen revelou suas finanças em dezembro de 2023, seus investimentos em Bitcoin estavam avaliados em cerca de 5 milhões de zloty, ou quase US$ 1,5 milhão na época.
Com esse valor, ele era o maior investidor de ativos digitais entre os parlamentares. Em uma entrevista pública dois meses depois, Mentzen relatou ter aplicado todas as suas economias em cripto desde 2013.
Seu interesse por cripto também se refletiu em compromissos políticos.
Ao concorrer à presidência, Mentzen prometeu criar uma Reserva Estratégica de Bitcoin caso fosse eleito. Ele também garantiu que promoveria um ambiente propício para empresas relacionadas à cripto, defendendo que tais medidas incentivariam a inovação e atrairiam investidores internacionais.
Para muitos eleitores, essa mensagem teve impacto. De acordo com relatório recente da Statista, 19% da população polonesa, o equivalente a cerca de 7 milhões de pessoas, utilizou criptomoedas em 2025. A projeção é que esse número chegue a 7,6 milhões até o fim de 2026.
Apesar de Mentzen ter terminado em terceiro lugar na eleição presidencial mais recente, seu desempenho foi expressivo.
No primeiro turno, ele obteve aproximadamente 2,9 milhões de votos, ou quase 15% do total. Foi uma das maiores votações já registradas por uma candidatura de direita nas eleições presidenciais modernas da Polônia.
O artigo Como a direita europeia adotou cripto após a eleição de Trump? foi visto pela primeira vez em BeInCrypto Brasil.


